Header Ads

ÚLTIMAS
recent

Henrique Cézar | A Veja e a hipocrisia



Carlinhos Cachoeira não é apenas um contraventor comandante do jogo ilegal no país e empresário “bem sucedido”. De acordo com as escutas da Polícia Federal, Cachoeira comporta-se como um excepcional chefe de reportagem ou ainda um exímio repórter investigativo. Pelo menos é assim que ele aparece em relações com a Revista Veja.

A revista Carta Capital desta semana foi corajosa ao condenar as práticas de sua concorrente e criticar mais ainda o modelo instituído no país o qual questionar as posturas dos veículos de comunicação é atentado à chamada liberdade de imprensa ou ainda tentativa de censura.

Como vem evidenciando as gravações da PF, Carlinhos Cachoeira utilizou-se da revista Veja, que por sua vez colocou sua poderosa estrutura a disposição dos interesses do contraventor. Já há algum tempo, se não desde sua fundação, a revista Veja atropela princípios do bom jornalismo e atua de maneira a criar uma realidade, ao invés de evidenciar uma, que seria teoricamente seu papel.

No livro Padrões de manipulação na grande imprensa, Perseu Abramo, ainda na década de 1980, relata perfeitamente a realidade dos grandes veículos no país, em especial a revista Veja. Atuando como instituição política, a referida revista, por meio de seu diretor na sucursal de Brasília, Policarpo Junior, acatou os desejos do grupo liderado por Carlinhos Cachoeira e produziu diversas reportagens e edições voltadas para influenciar negociatas do grupo. Para se ter uma ideia, a edição que denunciou o escândalos nos Transportes em junho passado não foi um serviço democrático da publicação para a nação, mas sim uma forma de pressionar os dirigentes do ministério e preservar os interesses da construtora Delta, ligada a Cachoeira.

Esse mecanismo foi utilizado em pelo menos outras cinco capas da revista recentemente, excluindo-se reportagens internas e notas. Em gravações, Cachoeira ordena a Policarpo a publicação de uma nota na publicação, sendo imediatamente acatado. Outra tentativa da revista, e até certo ponto bem sucedida, foi à transformação do Senador Demóstenes Torres em paladino da ética, a pedido, é claro, de Cachoeira. A intenção do bicheiro era fazer de Torres ministro do Supremo Tribunal Federal (imagina que dupla não daria com Gilmar Mendes) e para isso a revista publicara com frequência reportagens pregando a postura correta e ilibada do senador, mesmo sabendo de suas relações nada éticas com Carlinhos.

Pior do que a postura assumida pela revista, que evidentemente consciente em péssima prática jornalística, é a blindagem realizada pelos empresários do setor para que o assunto não seja alvo de investigação na CPMI. Como colocou o professor de ética jornalística da UFSC, Rogério Christofoletti, a relação estabelecida entre fonte manipuladora do jornalista é algo que “transgrede uma zona delicada”. Assim, o jornalismo hoje praticado pela Veja resume-se a um desserviço a sociedade e uma importante ferramenta para preservar os interesses econômicos dos grupos aliados.

Enquanto no Brasil questionar essas posturas é estar alinhado as fileiras radicais do PT e defender o Zé Dirceu, como coloca vergonhosamente o editorial do O Globo, que saiu em defesa de Veja, no Reino Unido, Rupert Murdoch, dono de um dos maiores impérios de mídia do mundo que fatura perto de US$ 30 bilhões/ano é acusado de enganar o parlamento, já prestou depoimentos na CPI e pode ser duramente punido pela atitudes assumidas por seus veículos. Como perfeitamente colocou Mino Carta, Roberto Civita é um de nossos Murdoch, com uma diferença: se apoia no conservadorismo e na manipulação generalizada para sair mais uma vez limpo, sem ter que prestar satisfações para quem quer que seja a ainda afirmar que contribui para o processo democrático do país.
Tecnologia do Blogger.