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Rafael Leopoldi | Nossas lembranças no fundo do mar



Há semanas acompanhamos os jornais para ver os desdobramentos da grande lambança do comandante italiano Schettino que afundou um navio de cruzeiro gigante como o Costa Concordia. Muito já foi falado sobre a imprudência em passar tão perto da costa ou da covardia em abandonar o navio antes de todos os passageiros, mas o que quero comentar é sobre o sinto cada vez que vejo uma nova imagem do Costa Concordia adernado na Ilha de Giglio.

Trabalhei para a Costa Cruzeiros por três anos e o Costa Concordia foi o meu navio em duas ocasiões. No fim do primeiro contrato fui transferido do Costa Mágica para o Costa Concordia, que me levou para conhecer Atenas na Grécia e as pirâmides do Egito para mencionar apenas os destinos mais especiais. Em meu terceiro contrato o Concordia navegou pelo mediterrâneo, pelas cidades de Savona, Barcelona, Napoli, Marseille, Palma de Mallorca, Palermo e Tunis. 

Somando passei quase um ano dentro do Costa Concordia, trabalhando muito, me divertindo bastante, fazendo grandes amizades, encontrando meu grande amor. Foram emoções únicas que só aqueles que trabalham a bordo de um gigante dos mares consegue entender. Um conflito permanente de amor e ódio pelo navio que fica para o resto da vida. 

Até 15 dias atrás, sempre que falava sobre navios eram esses dois sentimentos que me preenchiam. Lembrava dos horários de trabalho desgastantes, das ordens insanas dos chefes, mas também das festas (proibidas) com os amigos nas cabines dos tribulantes, nos passeios por algumas das cidades mais lindas do mundo. Era sempre esse misto de emoções, mas agora não. Cada vez que vejo uma nova foto, ou um novo vídeo na internet mostrando o Costa Concordia adernado, cheio d’água, com mergulhadores pelo teatro ou pelo Bar Europa me da uma sensação de perda, uma tristesa tão grande que é difícil de explicar.

Fico imaginando o que sentem as milhares de pessoas que passaram pelas cabines do Concordia. Quantas férias, luas de mel, cruzeiros românticos, passeios de turma de amigos, enfim quantas memorias felizes não afundaram na noite do dia 13 de janeiro. Porque de agora em diante sempre que alguém se lembrar de um momento feliz passado dentro do Costa Concordia ele será imediatamente seguido da lembrança do gigante dos mares virado na Ilha de Giglio. 

O Comandante Shettino não afundou apenas um navio de cruzeiro que vale milhões de dólares, ele afundou também as lembranças felizes e mágicas de milhares de passageiros ao redor do mundo e a esperança de outros milhares de um dia viver a experiência de um cruzeiro.

Eu mesmo que nunca fui um passageiro a bordo do Costa Concordia sinto que no fundo das águas da Ilha de Giglio está um pouco das minhas lembranças e também minha expectativa de um dia comemorar as minhas bodas de ouro no local onde conheci minha futura esposa, em um cruzeiro a bordo do Costa Concordia.
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